Por que voar no exterior se tornou atrativo?

 A máxima que diz “A grama do vizinho é mais verde” deixou de ser uma afirmação e passou a ser uma pergunta. Porém, será mesmo que a grama do vizinho é mais verde? Bom, se ela realmente for, só existe uma forma de descobrir.

Quando Reinaldo Azevedo usou em seu blog a expressão “proselitismo dos pilotos” em 2007, certamente não imaginava o que estava por vir na aviação brasileira, tanto quanto ao apogeu do chamado “caos aéreo” sobre aos problemas que viriam mais a frente relacionados a aviação e aos aeronautas.

O Brasil vive o êxodo de pilotos para o exterior desde a década de 1990, porém foi a partir do ano 2000 que ele se notabilizou, sendo alguns motivos

  • Falência das 3 maiores companhias aéreas brasileiras (TransBrasil, VASP e VARIG).
  • Incapacidade de absorção da mão de obra pelo mercado interno.
  • Instabilidade política.

A realidade aeronáutica brasileira, neste período, contratava com a pujança e ascensão de mercados como a Ásia e Oriente médio. A, infeliz, realidade do mercado brasileiro se tornou um atrativo para as empresas estrangeiras em ascensão, quando estas enxergaram no Brasil a mão de obra necessária para manter o seu ritmo de crescimento haja vista que, com a quebra das três grandes companhias, a quantidade de tripulantes com experiência em aeronaves wide- body que buscavam ser recolocados no mercado de trabalho era considerável.

Em contrapartida, as empresas além de realocarem os tripulantes no mercado também lhes ofereciam um salário que, acompanhando de outros benefícios, tornavam praticamente impossível a permanência destes pilotos no Brasil.

No ano 2010, a quantidade de pilotos que voavam no exterior beirava os 10% do efetivo nacional e este cenário trouxe de volta a realidade da década de 1960, quando o Brasil não dava conta de formar os pilotos necessários para manter os índices de crescimento da aviação.

Importante lembrar que a Aviação Brasileira, entre 2008 e 2012, chegou a beira dos 20% de crescimento anual. Com isso, houve o expatriamento de pilotos brasileiros, já que o mercado dava sinais de estabilidade, as empresas demonstravam resultados positivos e mantinham seus planos de crescimento.

Fato é que nem o maior dos pessimistas poderia imaginar este pandemônio que  tornou-se a política brasileira entre 2014 e 2016 e o quanto isso seria danoso para a economia brasileira, principalmente para a aviação.

Seria utópico acreditar nos 19% anual de crescimento da aviação brasileira, porém imaginar a retração de 7% - apenas 4 anos depois - não seria razoável. Lembrando que a retração de oferta, automaticamente, gera uma redução de demanda e que a diminuição de oferta de assentos é uma forma das empresas maximizarem seus lucros.

A falta de respeito do governo com os aeronautas brasileiros ultimamente, e mais do que nunca, está se tornando uma eficiente ferramente de exportação de mão de obra. Poderiamos nos perguntar – “E as empresas? Elas não tem culpa?” – poucas vezes as empresas aéreas estiveram nas mãos de gestores tão competentes, no tocante ao gerenciamento de crise, quanto hoje em dia. Não sei ao certo se os chamo de gestores ou mágicos.

Novamente utilizando a expressão de Reinaldo Azevedo, o proselitismo dos pilotos brasileiros tende a aumentar, e assim deveria ser, pois ao deixar de trabalhar no seu país de origem, acatar uma nova cultura, enfrentar a dificuldade de adaptação própria e da família, além do novo emprego que traz uma legislação trabalhista com carga trabalho e responsabilidade superior a CLT brasileira.

Por fim, com a licença poética, se compararmos os tripulantes as aves, estes deveriam ser comparados às àguias devido a sua precisão e destreza, porém num ambiente com total instabilidade economica e política, o governo e seus representantes obrigam os tripulantes a se tornarem falcões e, por consequência, uma ave migratória.

Esse post foi editado em 12/12/2019 09:04

Rodolfo Ribeiro

Bacharel em Aviação Civil, Pós Graduado em Gerenciamento de Crise pela USP, Professor de Legislação e História da Aviação.

Posts relacionados

22 Jul

10 anos sem a VARIG: Do triste fim as...

Por Rodolfo Ribeiro

Valendo-se de uma breve, e singela, analogia às obras de Machado de Assis e Lima Barreto este...

30 Jun

Aviação Regional: O Calcanhar de Aqui...

Por Rodolfo Ribeiro

O mais novo capítulo desta novela parlamentar em que se tornou a MP 714, no tocante ao aumento de...


Comentários