Aviação na União Européia após a saída do Reino Unido: Tiro no Escuro

De maneira precoce, haja vista que estamos há poucas horas do plebiscito que votou pelo “Sim” para saída do Reino Unido da União Européia, é possível levantar algumas questões referentes ao futuro da economia e, principalmente, ao futuro da aviação naquela região e os possíveis impactos. 

Lembrando que a votação ainda tem que passar pelo Parlamento e, se aprovada, a saída se prolongará por dois anos, até a exclusão total do bloco.

Antes de realizar qualquer análise quanto a aviação na Europa, é necessário realizar uma breve reflexão sobre a União Européia e sua importância histórica, do pós-guerra até o dia 23/06/2016. Na frase de Winston Churchill, em seu discurso a juventude Acadêmica, em 1946, “Existe um remédio que em poucos anos poderia tornar toda a Europa livre e Feliz. Trata-se de reconstruir a família Européia [...] Devemos construir uma espécie de Estados Unidos da Europa”, é possível entender o desejo de união e crescimento do líder britânico após a Segunda Guerra Mundial.

A entrada do Reino Unido na União Européia se deu em 1973, coincidentemente o ano em que foi fundada a Joint Airworthiness Authorities, que futuramente se tornaria a Joint Aviation Authorities (JAA), afim de regular e padronizar a atividade aérea na Europa. Com esta medida iniciou-se um processo de unificação do espaço aéreo Europeu, até chegar na forma atual, possibilitando o acesso a praticamente todas as rotas, por todos os países, por qualquer empresa aérea. Desta forma, por ser um bloco, não se configura o voo de cabotagem.

A partir da unificação da Europa, o crescimento da aviação se tornou constante e sustentável em grande parte do continente durante décadas. O fato da extensão territorial, de alguns países, ser reduzida poderia se tornar um entrave para o desenvolvimento econômico, e da aviação, caso não houvesse a unificação do espaço aéreo.

Há que se convir que o Reino Unido, historicamente, nunca esteve no centro aeronáutico da Europa, tampouco do mundo. Esta função ficou a cargo da França e Alemanha, que desde os irmãos Montgolfier e Otto Lilienthal se firmaram no cenário aeronáutico – não à toa –, e hoje possuem fábricas da principal fabricante européia de peças e aeronaves, Airbus.

Os efeitos negativos da saída do Reino Unido da União Européia, entre outros, são a desvalorização da libra perante o EURO ou Dólar, e a diminuição de investimentos – aumento de tarifas e acordos comerciais.

A British Airways, principal empresa aérea do Reino Unido e uma das principais companhias do mundo, pode ser diretamente afetada com essa mudança. Talvez não a médio prazo, mas a longo, já que a liberdade operacional de voar para todos os países do bloco, seja da British ou das empresas subsidiárias – Flybe, por exemplo –, está em check.

Por se tratar de uma situação extraordinária, não se sabe ainda quais mudanças ocorrerão quanto à liberdade das empresas britânicas e escocesas em suas operações dentro da Europa. É razoável crer que nos próximos 2 anos não haverá nenhuma mudança significativa quanto às operações da British Airways e suas coligadas em território da União Européia.

Fato é que o Reino Unido, com a exclusão, entrará vendado num ambiente escuro. Quanto à aviação, se houver qualquer tipo de retaliação da EASA ou JAA para as operações das empresas britânicas – acrescidas de possível desvalorização da Libra perante o dólar – veremos nos próximos anos o insulamento aeronáutico do Reino Unido, se é que este permanecerá “Unido”, haja vista que Escócia e Irlanda do Norte já cogitam a realização de um novo plebiscito sobre sua independência.

Esse post foi editado em 20/09/17 22:17

Rodolfo Ribeiro

Bacharel em Aviação Civil, Pós Graduado em Gerenciamento de Crise pela USP, Professor de Legislação e História da Aviação.

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