10 anos sem a VARIG: Do triste fim as memórias póstumas. PART 1

Valendo-se de uma breve, e singela, analogia às obras de Machado de Assis e Lima Barreto este texto, que será dividido em três partes, abordará alguns eventos que fizeram da VARIG a maior empresa da história da Aviação Brasileira. Uma história repleta de conquistas, audácias, visão de futuro e, infelizmente, falhas de gestão.

Munida de um alinhamento intrínseco com o governo desde sua concepção a Viação Aérea Rio Grandense(VARIG) galgava seus objetivos diante de uma,tímida, demanda de mercado, aja vista que, nos anos 1930 a Aviação no Brasil era uma realidade para poucos. Otto Meyer, seu fundador, após varias rodadas e negociatas com Borges de Medeiros, Osvaldo Aranha, Flores da Cunha e outros políticos do Rio Grande do Sul conseguiu fundar no estado, aquela que seria , a primeira empresa aérea Brasileira.

Nos dias de hoje o entrelaçamento das empresas aéreas com o governo se dá de forma, um pouco mais, tímida porém os efeitos das ações governamentais de cunho econômico e fiscal atingem diretamente as operações aéreas. No passado as companhias eram dependentes dos governos e muitas delas eram de capital misto.

Na década de 1930, com a saída de seu principal acionista a Kondor Syndicat a VARIG se viu obrigada a recorrer ao governo Rio Grandense, a fim de continuar com suas operações, aja vista que os 03 aviões que a companhia tinha foram recuperados pela Kondor, tornando então, a VARIG uma companhia aérea sem aviões. Vale-se lembrar que na década de 1930 o Brasil passava por uma de suas piores crises institucionais e econômicas, porém, devido ao acordo entre Otto Meyer, Osvaldo Aranha e Flores da Cunha o Governo Rio Grandense absorveu 51% da VARIG tornando-se co-proprietário da empresa e garantindo os investimentos e a compra de novas aeronaves, a fim de manter as operações da Companhia.

Com o início da Segunda Guerra Mundial e o crescimento do sentimento anti-germânico, Otto Meyer se viu obrigado a deixar a presidência da VARIG passando-a então para um de seus primeiros funcionários, o jovem, Ruben Berta. Berta, como era chamado, futuramente seria conhecido como o melhor e mais influente presidente da companhia e tido por muitos como seu, verdadeiro, criador.

Com a pujança do mercado brasileiro e beneficiada por incentivos financeiros a VARIG teve condições de ampliar sua malha, frota e seus lucros chegando a 1945 com capital e caixa suficiente para re-comprar do governo do Rio Grande do Sul os 51% de capital que lhes pertencia. Berta, ao readquirir o capital do governo criou a Fundação dos funcionários da VARIG, que posteriormente se chamaria Fundação Ruben Berta ,ou seja, a partir deste momento a VARIG pertencia a seus funcionários.

Durante a gestão de Rubem Berta a VARIG alcançou o posto de maior empresa Brasileira, superando e absorvendo suas principais concorrentes a REAL e a PANAIR. Berta, assim como seu antecessor Otto Meyer, fazia questão de manter e demonstrar seu alinhamento com o Governo que por vezes foi importante para a manutenção dos investimentos e crescimento da Companhia.

Entre os anos de 1950 e 1960 a Real Aerovias, fundada por Lineu Gomes em 1945 e sua frota de DC-3, se tornou uma das maiores empresas do Brasil, com 117 aeronaves e 5 mil funcionários. Imersa em uma grave crise financeira, em 1960, a REAL foi absorvida pela VARIG tornando-a  maior empresa aérea do Brasil e umas das 10 maiores do mundo.

A compra da REAL pela VARIG, foi um pedido pessoal de Juscelino Kubitschek para Ruben Berta, pois com a política e o plano de metas assumido por Juscelino e como uma de suas principais propostas de seu governo era a industrialização do Brasil e a Aviação era um setor importantíssimo, aja vista que, a aviação era uma ferramenta de integração nacional.

Com a ameaça de fundar a AeroBrasil que seria a primeira empresa aérea estatal brasileira, Juscelino disse “Berta, ou você compra a REAL ou eu terei de fundar a AeroBrasil, pois não posso deixar 5 mil funcionários na rua” (trecho extraído da obra de Sandra de Oliveira). Com isso e atendendo ao pedido do presidente da República, em 1960, a VARIG assume as aeronaves, os funcionários e todo passivo da REAL Linhas aéreas.

A compra da REAL é considerada umas das primeiras falhas de gestão e leitura de mercado da VARIG e acredita-se que está aquisição esteve diretamente ligada com o fato de a VARIG assumir as rotas da PANAIR, no episódio conhecido como “Caso PANAIR” . Devido a sua complexidade e história a PANAIR e sua sucumbência não serão abordadas neste texto, porém a importância dela para a aviação brasileira é inestimável.

A década de 1960 marcou a aviação mundial pois foi o início da chamada “Era a Jatocom o início das operações de aeronaves como os Boeings 707 e Caravelle com isso a primeira onda de endividamento das empresas pois o excedente de guerra já não supria mais as necessidades do mercado e iniciou-se a primeira rodada de renovação de frota do período pós guerra .

Mas infelizmente, Ruben Berta não concluiria a primeira rodada de renovação da frota da VARIG, devido a problemas cardíacos precisou se ausentar da presidência da empresa até sua morte em 1966, deixando a empresa nas mãos de Erik de Carvalho seu amigo, e braço direito no comando da empresa.

Esse post foi editado em 25/11/17 09:05

Rodolfo Ribeiro

Bacharel em Aviação Civil, Pós Graduado em Gerenciamento de Crise pela USP, Professor de Legislação e História da Aviação.

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