CRM Evita Acidentes Aéreos - Veja Como

Estudos indicam que 80% dos acidentes aéreos são provocados por erros humanos, milhares de pessoas perdem a vida por erro da tripulação técnica, de cabine, mecânicos ou até mesmo outros funcionários da empresa que estão envolvidos na operação. Desta forma empresas aéreas, indústria aeronáutica e governo verificaram a necessidade de incrementar programas de treinamento em fatores humanos, com o objetivo de melhorar a coordenação e o gerenciamento de toda a tripulação de voo.

O CRM aplica conceitos de gerenciamento moderno, tanto na cabine de pilotagem como em outras atividades operativas e administrativas que interferem no voo com o objetivo de reduzir o erro humano, fornecendo à tripulação uma variedade de estratégias para melhorar sua eficácia e, de acordo com a ICAO (International Civil Aviation Organization) é “melhorar a segurança do voo através da efetiva utilização de estratégias de gestão de erro do indivíduo, bem como das áreas sistêmicas de influência”. Diferentemente dos treinamentos tradicionais, o CRM tem como foco as habilidades cognitivas e interpessoais críticas.

No Brasil, a ANAC, por meio da Instrução de Aviação Civil - IAC 060 que tem como referência, as normas e recomendações sobre fatores humanos da ICAO, regulamenta o Treinamento em Gerenciamento de recursos de Equipes (Corporate Resource Management – CRM) (http://www.anac.gov.br/assuntos/legislacao/legislacao-1/iac-e-is/iac/iac-060-1002a) e determina que todas as organizações que operam segundo o RBAC 121, 135, 142, 145 e RBHA 91, 141 implantem este treinamento para seus colaboradores.

Os conceitos de CRM nunca substituirão a falta de conhecimento técnico, da mesma forma que o alto nível de conhecimento não garantirá operações seguras sem que haja a coordenação de toda a equipe, portanto, o conhecimento dos conceitos de CRM combinados com a proficiência técnica garante uma operação segura, eficiente e eficaz.

De acordo com a IAC, por melhor que seja o treinamento em CRM, não é possível absorver o conhecimento em um curto espaço de tempo e este treinamento deverá ocorrer em três fases: 1ª - conceitos iniciais, 2ª – práticas de CRM e 3ª – reciclagem.

O treinamento em CRM deve enfatizar o trabalho em equipe, e não a competência técnica individual, visando a eficiência e a eficácia no desempenho operacional; e deve criar oportunidades para que o grupo ponha em prática e desenvolva conceitos de liderança e trabalho em equipe, de acordo com a sua real função.

Os exercícios vivenciados no curso, surte efeito positivo nos participantes, uma vez que as situações simulam operações de rotina contribuindo para a redução do estresse em momentos de alta carga de trabalho. Em casos de emergência, quando a pressão do tempo exige uma resposta rápida, a prática frequente CRM e a reciclagem garantem um desempenho satisfatório dos participantes. 

Sendo assim, todos, por mais “insignificante” que seja ou pareça ser para uma operação, tem o dever e o poder de interferir na operação quando tomar conhecimento que a segurança estiver ameaçada. Outro ponto importante que o CRM aborda é a consciência situacional, o envolvido precisa saber exatamente o que está acontecendo ao seu redor e quando necessário fazer questionamentos mesmo estando em situação de desvantagem ou inferioridade como por exemplo o copiloto quando questiona o comandante ou o aluno ao instrutor.

O CRM é uma prática que deu tão certo que alguns métodos são de caráter universal, sendo utilizado em outras áreas como por exemplo na medicina onde o erro humano é fatal assim como na aviação. Por ano, nos Estados Unidos ocorrem 99 mil mortes por erros evitáveis cometidos por equipes de saúde, sendo assim, profissionais dos Estados Unidos adaptaram o programa de CRM da aviação para criar rotinas de segurança em simuladores. Já no Brasil em 2013 um grupo de médicos com o apoio da Associação de Medicina Intensiva Brasileira e a Gol Linhas Aéreas iniciou um projeto para implementação do CRM na área da saúde e a elaboração de mecanismos padronizados de comportamento, comunicação e apoio à tomada de decisão.

HISTÓRICO

Em uma oficina patrocinada pela NASA em 1979 sobre “Gestão de Recursos na Cabine de Comando” identificou-se o erro humano como a principal causa de vários acidentes e foi o start para a criação do CRM como uma técnica de coordenação de atividades entre comandante e copiloto – e, eventualmente, engenheiro e mecânico de voo, navegador, e quem mais estivesse na cabine, sendo o significado da sigla Cokpit (cabine) Resource Management. Alguns anos depois, em 1986, houve a necessidade de incluir os comissários e o pessoal de manutenção pois todos estavam ligados à operação, assim, passou de Cockpit (Cabine) para Crew (tripulação) Resource Management. O curso era focado na tomada de decisões, formação de equipe, consciência situacional e gestão do stress, fatores determinantes para a segurança operacional. E, atualmente engloba todas as pessoas que atuam na empresa, até o pessoal administrativo e assim a sigla continua CRM, porem com o significado de Corporate Resource Management, e este conceito é utilizado não somente para a aviação, mas para diversas organizações mundiais.

Na página do FAA há um vídeo que mostra a história do CRM desde seu início, vale a pena ver.

Por fim, o CRM é uma ferramenta importante para que acidentes sejam evitados e para que vida humanas não sejam perdidas. Analisando o Modelo de Reason, pessoas comentem erros e violações, as defesas são diversas e se não forem efetivas e de qualidade, o acidente acontece. Por exemplo o treinamento (CRM), caso essa “aba” seja efetiva e de qualidade, os erros cessam e a continuidade de erros não prossegue e então o acidente é evitado.

Como já informado, muitos acidentes aéreos ocorrem por falha humana, um deles ficou conhecido como desastre de Staines. No dia 18 de junho de 1972, um Hawker-Siddeley Trident da British European Airways realizava o voo 548 BEA do aeroporto de Heathrow em Londres, para o aeroporto de Bruxelas e caiu logo depois da decolagem matando os seus 118 ocupantes. Após a decolagem, alguém na cabine retraiu os slats, a aeronave imediatamente perdeu sustentação e entrou em estol. Seus 2 sistemas de prevenção e recuperação de estol entraram em ação: o "stick shaker" fez o manche vibrar e o "stick pusher" colocou o nariz do avião para baixo, numa tentativa de ganhar velocidade com o mergulho e recuperar a sustentação. Outras vezes o sistema anti-estol entrou em ação, porém logo foi desligado pela tripulação e a aeronave entrou em uma condição irrecuperável chamada "estol profundo" e assim o Trident parou de voar e começou a cair como uma pedra, colidindo com um terreno.

Esse post foi editado em 20/11/2019 02:01

Marina Rapuano

Analista de Segurança de Voo. Graduada em Aviação Civil (UAM), Especialista em Segurança de Aviação e Aeronavegabilidade Continuada (ITA), Gestora de Segurança Operacional – GSO (ANAC).

Posts relacionados

18 Jul

Colisão com fauna: danos e custos

Por Marina Rapuano

Um grave problema brasileiro é o crescimento da população associado à ocupação desordenada do...

30 Jun

Aviação Agrícola: colisão com rede el...

Por Marina Rapuano

Histórico O agente florestal alemão, Alfred Zimmermann, é considerado o pioneiro da aviação...


Comentários